Frio vs Calor? Qual a melhor formar de tratar as lesões?



Lesionei-me… E agora? Aplico Frio ou calor?

Desde cedo nas nossas vidas que vamos ouvindo possíveis ‘’curas’’ para quando nos magoamos ou lesionamos. Seja de pais ou avós, todos já ouvimos maneiras de aliviar a dor, de reduzir a inflamação ou de ‘’limpar’’ os tecidos. Ora, nem tudo o que se propõe tem uma base assente no que toca a factos científicos.

Mas então, eu lesionei-me, e agora? Aplico gelo? Coloco um saco de água quente? Aplico uma pomada anti-inflamatória?

O tema da gestão de lesões agudas já foi amplamente estudado, e continua a ser um tema de acesa discussão, e como toda a ciência, em constante evolução.

Os primeiros relatos de algum protocolo que nos ensinasse a lidar com situações agudas, nomeadamente aplicado ao desporto, surgiu em 1978, através de um livro de medicina desportiva do Dr. Gabe Mirkin, no qual expôs a base dos protocolos que encontramos hoje, e lhe chamou RICE (Rest-Ice-Compression-Elevation)1, ou seja Repouso, Gelo, Compressão e elevação. Tudo isto com o objetivo de minimizar a resposta inflamatória provocada pela lesão. Anos mais tarde, seria acrescentado um P ao protocolo, representando Proteção, renomeando o protocolo para PRICE.

No ano de 2012, foi introduzido pelo BJMS (British Journal of Sports Medicine), o termo POLICE, no qual substituía a vertente do repouso, pelo termo Optimal Loading, ou carga apropriada, no sentido de que introduzir alguma vertente de movimento, exercício, ou estímulo à zona lesionada, seria muito mais benéfico, comparativamente ao repouso per si. Neste momento, o protocolo mais aceite seria Protection-Optimal Loading –Ice-Compression-Elevation.2

O mesmo Dr. Gabe Mirkin viria em 2014, recusar o protocolo que havia introduzido, retirando a aplicação de gelo da equação, por defender que a aplicação do mesmo, poderia limitar a resposta inflamatória e hormonal à lesão, e assim atrasar o processo de tratamento. 3

Apenas bastante recentemente (2019), foi definido o protocolo que é cientificamente mais aceite atualmente, novamente pelo BJMS, denominado de PEACE & LOVE. 4




‘’Então, mas se o gelo não funciona, em que é que ficamos?’’

Independentemente de a literatura não colocar a aplicação de gelo como opção prioritária em lesões agudas, este pode ser um aliado importante. Como referimos anteriormente, a inflamação é essencial para a recuperação dos tecidos lesionados, no entanto, um edema excessivo pode aumentar a dor, limitar o movimento e reduzir a força.

O ideal será utilizar o gelo como forma de limitar a inflamação e reduzir a dor (baixa temperatura reduz a sensibilidade dos tecidos), em lesões osteoarticulares. Em lesões musculares, o melhor é mesmo deixar o gelo no congelador.

Então e o calor?

A aplicação de calor é historicamente associada ao tratamento de lesões musculares. O que a literatura nos diz, é que estará associada a vasodilatação, à redução do espasmo muscular, aumento do fluxo sanguíneo e metabolismo local, fornecendo ainda uma sensação de conforto, bem-estar e ainda uma redução da dor.

Normalmente, está associado a lesões de teor mais crónico, onde a escolha de tratamento recai sobre a opção que promove maior alívio dos sintomas, ou a lesões associadas a aumento do tónus muscular. No entanto, sabe-se que é uma temática que carece de investigação mais alargada.

Fazendo um pequeno resumo, em lesões de cariz agudo, como uma entorse ou trauma, por exemplo, deve optar por uma abordagem baseada no PEACE & LOVE, com a possível inclusão do gelo, caso sinta que é benéfico para a sua situação, e se sinta bem com isso. 6,7

Caso tenha alguma situação relacionada com tensão muscular, ou uma situação músculo-esquelética de teor mais crónico, quererá optar pela aplicação de calor, caso esta opção lhe promova melhor bem-estar físico e mental.

Em jeito de conclusão, hoje em dia sabemos que através do movimento e do exercício, colocamos o nosso corpo numa situação muito mais favorável à reabilitação do que estaríamos exclusivamente em repouso, por isso, opte por hábitos saudáveis, faça exercício e mantenha uma dieta equilibrada. Todos estes fatores são chave na recuperação e manutenção da nossa funcionalidade.

Henrique Cassiano

Fisioterapeuta – Ferreira da Cunha Saúde

Referências

  1. Mirkin, G. Hoffman, M. The sportsmedicine book. (1st ed.). Little Brown and Co. 1978.

  2. Bleakley, C. M. Glasgow, P. MacAuley, D. C. PRICE needs updating, should we call the POLICE? British Journal of Sports Medicine.2012 46, 220–221.

  3. Mirkin, G. Why Ice Delays Recovery. 2014 . https://www.drmirkin.com/fitness/why-ice-delays-recovery.html

  4. Dubois, B. Esculier, J-F. Soft-tissue injuries simply need PEACE and LOVE. British Journal of Sports Medicine. 2020. 54, 72-73.

  5. Scott A., Khan K. M. What do we mean by the term “inflammation”? A contemporary basic science update for sports medicine. British Journal of Sports Medicine. 2004 38, 372–380.

  6. Nadler SF, Weingand K, Kruse RJ. The physiologic basis and clinical applications of cryotherapy and thermotherapy for the pain practitioner. Pain Physician 2004;7:395–9.

  7. Malanga, G. A., Yan, N., & Stark, J. (2014). Mechanisms and efficacy of heat and cold therapies for musculoskeletal injury. Postgraduate Medicine, 127 (1), 57–65. https://doi.org/10.1080/00325481.2015.992719

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